Diário de Viagem: uma bela tarde em Curitiba

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Todo escritor precisa de algumas horas de solidão, de silêncio, de vazio, como se fosse preciso se transformar em uma página em branco para a partir do zero emergir ideias, imagens, impressões, sensações e associações. Sendo assim, toda viagem que faço, mesmo que seja de férias, deve incluir obrigatoriamente algo que me ensine, me inspire, me renove cognitivamente, desde que seja autêntico, genuíno, nada de pompas ou rituais. Diario de Viagem Curitiba-Revista Vida Interessante

Por motivos familiares, passei um final de semana em Curitiba  e aproveitando o ensejo, fiz minha caminhada passeando pelo centro da cidade do trecho do Teatro Guaíra até o Hotel Bourbon, em frente a Biblioteca Pública.

Ver as lojas, as pessoas, os carros, os movimentos de uma cidade grande, a multiplicidade de modos de caminhar, ouvir novos sons e novas maneiras de falar, se mover, circular, é tudo muito interessante.Abordar as pessoas para pedir informações, descobrir novos becos, cantinhos, atalhos, vias enormes, atravessar avenidas, tudo é muito dinâmico. Se eu pudesse, faria como fazem alguns New Yorqueres(residentes de NY): circularia de rollers. Mas aqui no Brasil isso seria excêntrico demais, ainda mais no Paraná. Então, fui de meu “expresso canela” mesmo usando saltos!

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Meu roteiro nesta tarde cultural de sexta-feira na capital paranaense foi visitar a:

1. Biblioteca Publica em frente ao Hotel Bourbon.

2. Bondinho da Leitura – Rua das Flores.

3. Café Damasco.

4. Livraria Curitiba.

Chegando na Biblioteca Pública, não há como não se emocionar. Entrar, observando as pessoas realmente concentradas, calmas, pensando. É outra dimensão sensorial. A sensação de liberdade é absoluta. É como se eu fosse apenas mente, e não mais corpo; somente cérebro e não mais continente. O caos se instaura fora daqueles limites, fora dos quadrados das mesas, das estantes, dos livros.

Consultei uns cinco livros que estava há muito tempo buscando conhecer, li dois livros, tirei fotos dos textos mais marcantes para reler depois no aeroporto com o Tablet sem qualquer problema. Até que a fome bateu… eram mais de duas horas da tarde e eu não havia almoçado. Enfim, fui levar o estômago para comer algo…

Antes passei no Bondinho da Leitura, lugar onde eu passava algumas tardes nas férias, quando minha avó ali me deixava e saia para seus afazeres. Lembro-me que eu me sentava numa mesa grande, toda minha, recebia uma folha em branco e vários lápis de cor. A pessoa se afastava e me deixava sozinha.

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O melhor é que não recebia ordens, portanto, podia desenhar e pintar o que imaginasse. Só esta experiência de liberdade já era uma diversão. Entrar no vagão – hoje tão pequenininho – é como sentir-me mais perto da minha avó que sinto tantas saudades, a mulher mais importante de toda a minha vida. Ela me ensinou a estudar, viajar, fazer amigos e ser independente, claro além de rezar Ave Maria até de trás pra frente, acordar cedo e caminhar sem parar.

Seguindo adiante, quase fiz uma paradinha na Casa das Canetas para repor meu estoque de tinta para caneta tinteiro, mas segui meu roteiro.

O próximo ponto foi o famoso e misógino Café Damasco, um bequinho, uma lanchonete bem simples, estreita, pequena, que fica ao lado da Livraria de Curitiba na Rua das Flores. Precisava tomar meu sagrado café e algo salgado. Sempre que vou, há vários senhores sérios, com cara de gato persa conversando, lendo jornal ou simplesmente sentados na entradinha estreita.

Não me lembro de encontrar mulheres, a não ser as balconistas. As balconistas brincam apontando a placa de metal que há na entrada criada por umas “mulheres desaforadas”. Ora, mais do que escrever, protesto real é se fazer presente! (Mas queridinhas: é preciso ter um pouco de conteúdo, ler um livrinho realmente interessante, porque só beleza não sustenta uma conversa de verdade com pessoas que tem por hábito pensar. Não espere gastar seus adjetivos.

Homens são lacônicos. Frases simples. Construções diretas. Quer aprender um pouco? Leia as obras de Ernest Hemingway, sobretudo “Paris é uma Festa”. Se sentir um pouco homem, mesmo que mentalmente é tão libertador. Assumo minha inveja! É tudo tão mais simples e descomplicado! A escritora Danuza Leão tem muito desta praticidade mental).

Tomar café na Cafeteria Damasco é sublime. Parece que entro num recinto quase que exclusivamente masculino, uma tabacaria, algo assim. Peço meu café grande, sem leite (não sou bezerro), nem açúcar (porque não sou abelha  , e do fundo, tomo meu café pelando, admirando invejavelmente a confraria masculina. Ambiente sóbrio, vozes grossas e pausadas, poucas palavras, somente as estritamente necessárias… Poder tomar um café puro com as orelhas calmas é uma tranqüilidade. Nada de gritos, nada de agudos… Cores sóbrias, cheiro de café… e eis que avisto uma pessoa muito conhecida de Foz do Iguaçu: o Vereador Nilton Bobato.

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O choque foi tamanho que fiquei imóvel por cinco segundos me perguntando: – Estou em Foz ou em Curitiba? Bem, como não tinha mais como manter a formalidade, comecei a rir e o abordei. Conversamos sobre filmes, livros, literatura com um senhor chamado Luiz Manfredini, curitibano, jornalista, escritor, autor, dentre outras atividades. Escreveu “Moças de Minas” e “Memória de Neblina”.

Uma conversa muito interessante, objetiva, direta, sem rodeios. A conversa terminou. Pena! Foi tão boa que me esqueci do meu café… e que esfriou… e um senhor que pelo jeito gostou de ouvir nossa conversa, me alertou para não tomar café frio. Agradeci, pois isso é muito do Paranaense: cuidar a temperatura do café! Somos fixados nisso. O café é uma iguaria muito preciosa para se perder assim com o esquecimento: salvo, um bom motivo!

Diario de Viagem Curitiba-Revista Vida Interessante-7Enfim, encerrei meu roteiro visitando ao lado, a Livraria de Curitiba. Encontro nela livros sempre baratos e bons, além de CDs de música francesa e alguns filmes raros.

No dia seguinte, fui ao Shopping Crystal assisti ao documentário de arte conceitual muito interessante sobre Foz do Iguaçu, que na realidade é uma obra artística sonora em que as Cataratas do Iguaçu tem especial destaque, além da Barragem de Itaipu. Enfim, aguardem que gravei alguns trechos deste documentário pelo youtube, assim que conseguir extraí-lo do meu smartphone.

Bem, para eu que resido em Foz do Iguaçu há 12 anos, que nasci na roça, contemplar a natureza não é novidade nenhuma, muito menos as Cataratas que conheço de cor! Já caminhei por muitos de seus bequinhos, inclusive no lado da Argentina, que é belíssimo. Uma coisa é certa: Foz do Iguaçu está na moda!!!

Até breve!

Graça Razera

 

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