Primeira Guerra Mundial: poucos aprenderam as lições da história

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(Foto: RIA Novosti / Reportagem: Voz da Rússia)

Há 100 anos, a Rússia entrou na Primeira Guerra Mundial. Esse conflito global foi uma tragédia para toda a humanidade, levou milhões de vidas, redesenhou o mapa político do continente europeu, causou enormes prejuízos econômicos. Entretanto, as atitudes atuais de vários líderes mundiais são muito semelhantes aos às que levaram ao grande desastre no início do século passado.

Em 1 de agosto de 1914, a Alemanha declarou guerra à Rússia. O pretexto foi o assassinato do herdeiro do trono austríaco, o arquiduque Francisco Fernando pelo sérvio bósnio de dezanove anos Gavrilo Princip. A Áustria-Hungria (um estado multinacional na Europa Central, que existiu durante os anos de 1867-1918) afirmou que por trás deste crime estava a Sérvia e declarou-lhe guerra. A Alemanha, que apoiava os austríacos, considerou isso uma boa ocasião para satisfazer suas próprias ambições geopolíticas e declarou como seu oponente a Rússia, que tinha apoiado os sérvios. Logo nos primeiros dias de agosto, também a Bélgica, o Luxemburgo e a França foram envolvidos na guerra.

Ficou logo evidente que o arquiduque morto não tinha nada a ver com isso: os países estavam resolvendo seus próprios problemas, diz Natalia Narochnitskaya, doutora em ciências históricas e cientista política:

“A Primeira Guerra Mundial foi motivada por processos profundos nos ânimos da população, na geopolítica, na expansão e desenvolvimento de novos centros de poder na Europa. Estas contradições se agravaram acentuadamente no início do século XX: é frequente acontecer que conflitos irrompem no início do século, hoje também vemos como as contradições estão acumuladas. E aconteceu que as principais aspirações estratégicas das potências naquela altura colidiram nas fronteiras europeias da Rússia”.

Os países estavam competindo por influência no continente, por mercados de venda, por acesso ao mar. Simultaneamente, aliados históricos iniciavam querelas e correligionários criavam novas alianças. Aos poucos, se viram envolvidos na guerra a Alemanha, Austrália, Áustria-Hungria, Bélgica, Brasil, Bulgária, Canadá, China, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Grécia, Índia, Itália, Japão, Montenegro, Nova Zelândia, Newfoundland, Império Otomano, Portugal, Romênia, Rússia, Sérvia, e União da África do Sul. A maioria deles foram diretamente teatros de combate e sofreram perdas econômicas colossais.

Ao contrário da maioria dos países que participam na Primeira Guerra Mundial, os Estados Unidos lutaram em solo estrangeiro. E as enormes encomendas militares colocadas por diferentes países na América do Norte garantiram aos Estados Unidos grandes lucros. A dor e o sofrimento de uns viravam a sorte de outros: nos anos de guerra nos Estados Unidos surgiram 17.000 novos milionários. Na sequência da Primeira Guerra Mundial, os EUA viraram um país aspirante à liderança global.

Durante a guerra, os países começaram a dar grande importância à propaganda interna e externa, observa a historiadora Natalia Narochnitskaya:

“Pela primeira vez se descobriu o enorme papel da influência sobre os ânimos das pessoas. Na altura era a imprensa escrita, que banhava em sujeira futuros adversários. Pela primeira vez houve uma satanização tão maciça dos opositores que excitava o público. Hoje, vemos como a mídia, desta vez já eletrônica, que aumentou a sua influência várias vezes, está fazendo a mesma coisa, exacerbando, de facto, o conflito e tornando o deslize para a catástrofe imperceptível para as pessoas”.

As semelhanças entre os acontecimentos de há um século e a situação atual no continente europeu são evidentes. Hoje, no campo de conflito que é a Ucrânia entraram novamente em confronto os interesses de diferentes países. Mais uma vez, os Estados Unidos estão desempenhando um papel ativo, tentando decidir os destinos de outros países e continentes.

As lições da Primeira Guerra Mundial foram esquecidas, acredita o diretor de programas de pesquisa da Fundação Memória Histórica, Vladimir Simindei:

“Temos que constatar que os governos dos grandes países de hoje não aprenderam as lições da história, e em vez de se esforçarem por apagar o conflito estão inflando-o de todas as formas, usando as contradições dentro de outros países. Neste contexto, parece muito perigoso o comportamento das atuais potências ocidentais que encorajam de todas formas o nacionalismo ucraniano e promovem o envolvimento da Rússia no conflito na Ucrânia”.

Na sequência da Primeira Guerra Mundial deixaram de existir quatro impérios: o Russo, o Austro-Húngaro, o Otomano e o Germânico. Os países participantes perderam mais de 10 milhões de soldados e 12 milhões de civis. Cerca de 55 milhões de pessoas foram feridas e mutiladas.

Mas essas vítimas não foram as últimas na luta pelas ambições políticas. O emaranhado de contradições não foi resolvido, e foi necessária a Segunda Guerra Mundial para esfriar as cabeças quentes dos políticos gananciosos por poder. Como se verificou, apenas temporariamente.

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