O Charme Francês em Foz do Iguaçu: Os ventos sopram para as mentes abertas.

3
1208

kunda-revistavidainteressante-3Inaugurando a Coluna CAFÉ COM LIVROS, é interessante saber como surgiu a primeira livraria da cidade de Foz do Iguaçu-PR, a cidade ícone da tríplice fronteira.

Da livraria, nasceu a Associação Franco-Foz que se tornou recentemente a Aliança Francesa.
A KUNDA livraria é um ponto de encontro entre leitores que amam livros diferentes e interessantes, além de livros comerciais; sobretudo é o “point” de professores universitários, que juntos orientam cerca de 4000 jovens acadêmicos nesta cidade. São consultores da parte cultural da cidade, sobretudo na Feira Anual do Livro.

kunda-revistavidainteressante-7-7

kunda-revistavidainteressante-7-6

Como os ventos levam pólens, areias para outros lugares, a livraria dispõem de livros interessantes para mentes interessantes, as mentes abertas não apenas para as questões da América Latina, mas para outros continentes.

A Kunda é a primeira livraria universitária e, certamente, é a primeira livraria da cidade de Foz do Iguaçu, fundada em 1989, pelo casal Nathalie e Claimar.  Ambos se conheceram em Paris.  O charme, além da música ambiente alternativa e agradável, é o estilo sofisticado e cult.

Convenhamos…KUNDA é um nome interessante. A palavra é de origem africana. Justamente por este motivo, além de outros mais peculiares à história do casal em Paris, é que este raro nome foi escolhido.

A palavra remete a vários significados, dentre os quais: memória,ou seja, a ferramenta essencial para quem lê; – qual autor, qual capítulo, qual edição, qual trecho, qual ideia? – A memória é associada ao elefante, uma das traduções da palavra devido à expressão popular: ”memória de elefante”. Considerado também como um dos mamíferos mais inteligentes na vida real, o elefante é além de tudo o Deus dos Escritores, o Deus com a cabeça de elefante, o Ganesh, que escreve o grande Livro do Mundo: o Mahabharata, o livro sagrado da Índia.

kunda-revistavidainteressante-7-1Nathalie afirma que a cultura brasileira deve muito à cultura africana: nossa culinária, nossa música, nossa literatura, além de nossa genética mestiça. Aqui no sul, o reconhecimento é  discreto e precisaria valorizar mais a riqueza dessa cultura, além do samba, carnaval e feijoada. E este foi um dos motivos principais para homenagear a cultura africana elegendo um nome africano.

kunda-revistavidainteressantePor isso, a livraria é aberta ao mundo, razão de haver livros diversificados em todas as áreas de conhecimento, da filosofia, sociologia, antropologia, história, artes, e não somente livros comerciais. Livros raros? Também, já encontrei alguns que não havia encontrado em lugar algum.

A livraria já nasceu multilíngue: português, espanhol, inglês, francês. Em geral, as obras raras são vendidas aos turistas nacionais ou estrangeiros que visitam a cidade. Mas os clássicos tem seu lugar garantido apesar da pouca, mas eterna rotatividade. O foco não é apenas comercial, mas sobretudo cultural. Claimar se realiza ao citar o livro “O nome da Rosa” que tem o prazer de vender um exemplar, mesmo que seja a cada 2 anos, pois sabe que mantem uma relíquia, uma pérola do pensamento humano, da cultura humana no sentido universal.

Paris: cidade do amor. Mon amour… A bibliofilia- o amor aos livros – os uniu.

Nathalie e Claimar se conheceram na capital francesa por amigos em comum. Cada qual trabalhava em livrarias-editoras próximas, no mesmo bairro famoso do Quartier Latin.
A livraria-editora onde Claimar trabalhou por 8 anos, chamada L´harmattan  (significa o nome de um vento, seco e poeirento, típico da África ocidental – como existe o vento Minuano, frio de origem polar, típico da região gaúcha ) se tornou e é, até hoje, uma das maiores livrarias-editoras independentes da França. Fundada por um ex-padre jesuíta, a especialidade desta livraria-editora foi publicar e divulgar livros sobre os países em desenvolvimento; sendo – até hoje – um dos maiores acervos de livros sobre os países da África, Asia, países árabes e América Latina.

Claimar saiu do Brasil na época da ditadura militar, buscando novos ares. Sua meta era morar no Canadá. Mas a politica migratória de cotas fez que seu visto fosse negado várias vezes por causa da sua profissão de contador. Decidiu partir para Paris, para depois seguir para o Canadá. Quando lá chegou, não saiu mais. Viveu por quase uma década no mesmo bairro, onde trabalhou e conheceu sua esposa. Até hoje, não conhece o Canadá.

Contudo, após quase uma década vivendo entre os livros, na condição de estrangeiro latino-americano, passou a sentir saudades da nossa tropicalidade: do canto dos pássaros, da luz do sol. E a saudade apertou mesmo quando a repressão contra os imigrantes e uma onda de atentados começaram a criar as primeiras tensões na sociedade parisiense, no final dos anos 80. A própria livraria também era alvo da violência, uma vez que agregava escritores e refugiados políticos dos países em conflito, em guerra ou sob a dominação de uma ditadura. Somado ao clima frio e sombrio da Europa e ao processo de abertura politica na América Latina, ele retornou ao Brasil. Escolheu Foz do Iguaçu pois um ramo da família, pioneira de Foz, tinha vários empreendimentos e precisava de um gerente para tocar uma papelaria que estava se estabelecendo na Avenida Brasil, e que hoje não existe mais.

Alguns anos mais tarde, em 1985, sua esposa Nathalie, sem falar Português, chegou da cidade Luz, local onde nasceu, cresceu e se profissionalizou. É uma livreira! Profissão em extinção… Lê biografias de escritores para melhor indicar os livros para seus clientes. E os comenta com vigor intelectual, com fundamento, de modo simples e direto. Seu amor pelos livros começou pela herança que seu pai havia lhe dado: uma biblioteca. Desde então, não mais se separou dos livros. Em Paris, trabalhou na livraria da praça da Sorbonne chamada Des Presses Universitaires de France, P.U.F, criada em 1934,sendo ainda uma referencia para os livros jurídicos, de filosofia  – Bergson era um dos filósofos publicado pela casa – e de ciências humanas – as traduções de Freud –. Mas a livraria fechou as portas nos anos 2000 , e o lugar virou uma loja de roupas. A livraria está em crise em todo lugar: no Rio de Janeiro, em Paris e também em Foz do Iguaçu… guardada às devidas proporções.

Para quem curte a literatura modernista, da década de 20 e 30, é interessante ressaltar que Nathalie trabalhava próxima à famosa livraria Shakespeare & Cia (destacada no filme “Meia-noite em Paris” de Woody Allen – filme inspirado do livro “Autobiografia de Alice B. Toklas” por Gertrude Stein, a mentora do grupo de escritores americanos radicados em Paris, nos anos 20, como Eric Hemingway, Fitzgerald, dentre outros, e que durante a ocupação nazista foi obrigada a fechar).

Nathalie se tornou uma Livreira especializada em direito, filosofia e literatura. Enquanto que Claimar prefere livros sobre história, finanças e administração. A complementação é perfeita!  A proposta do casal em manter a livraria a duras penas  é difundir a cultura local e internacional. Eles não apenas vendem livros, mas os discutem, indicam, e tiram como se tira um coelho da cartola, um livro interessante de algum cantinho de suas prateleiras abarrotadas.

Como a livraria consegue sobreviver frente a tantas revoluções no mercado editorial, numa cidade turística, agrícola e – infelizmente – ainda marcada pelo contrabando, além de ser afastada dos grandes centros culturais, sendo distante de tudo, numa cidade tão “jovem”, cuja cultura é de pessoas em sua maioria de fora, da fronteira ou de passagem?

Existe um pacto de silencioso de amizade e cumplicidade entre a livraria e seus fregueses em comprar livros pela KUNDA, do que pela internet, em respeito ao compromisso do casal em manter um acervo raro, precioso e sofisticado na cidade.

kunda-revistavidainteressante-7-3Por isso, vem sendo o ponto de encontro obrigatório entre intelectuais, leitores, artistas, escritores da fronteira que se unem pelo amor aos livros, em prol de uma liberdade de pensar.

É possível hoje imaginar Foz do Iguaçu sem a KUNDA?

Para os cidadãos que reconhecem que a vida é muito mais interessante com livros, é claro que a resposta é “não”.

kunda-revistavidainteressante-7-2

Aproveitando o fato que Claimar e Nathalie conheceram em Paris diversos escritores e intelectuais de diversos cantos do mundo, pois ambos transitavam em meio a toda a elite intelectual, acadêmica e política na década de 70 e 80, procurei arriscar uma pergunta interessante.

Perguntei à Nathalie o seguinte:
– Qual é o livro de um escritor que você conheceu pessoalmente em Paris exposto na Kunda?

Ela elegeu um autor que você irá descobrir no vídeo a seguir.
Nas próximas edições, citará outras obras igualmente interessantes.

Revista Vida Interessante – Livraria Kunda

3 COMENTÁRIOS

  1. Graça Razera. Parabéns pelo texto, bela narrativa. Os motivos, a participação da livraria na história, na vida dos fundadores e na cidade. A curiosidade dos termos africanos nos nomes das livrarias em Foz do Iguaçu e em Paris. Certamente, tanta riqueza histórica e a resistência às adversidades através do tempo, continuarão fazendo da Livraria KUNDA um espaço especial para acolher mentes abertas e conceber momentos interessantes. Fiquei com vontade de conhecer a Livraria.

    • Sr.Laércio Lins
      Fico feliz que a matéria tenha lhe despertado a atenção e aguçado sua curiosidade. Este é o papel dos comunicadores: informar, trazer à luz as fontes culturais de uma nação.

  2. Parabéns pelo texto, mas principalmente por ter optado falar sobre esse casal nota 1000 que traz na alma a cultura… Adoro a aura de “saber” que encontro na Kunda, adoro poder falar sobre obras com quem entende muito sobre elas!

Deixe uma resposta