Meu primeiro leão

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Era uma vez um menino carioca com 10 anos de idade indo morar em Foz do Iguaçu. O pai foi trabalhar na Itaipu e levou a família toda. Esse menino foi criado como legítimo Iguaçuense, apesar de nunca abrir mão dos “x”, “s”e “r” forçados na fala.

Morou na vila A, estudou no Anglo e frequentava o antigo Floresta Clube. Bons tempos que não voltam. Com direito a Flofrifuti, peteca e sambão. Tinha refri em saquinho e rodízio de pizza que rolava disputa de quem aguentava mais pedaços. Uma infância digna de qualquer menino da vila. Que brincava na rua e subia nas árvores para catar frutas.

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Após a escola chegou a começar sua faculdade de propaganda na UDC. Tinha uma banda de rock que tocava no Alquimia, na Tass e nos bons tempos do La barranca da Argentina. Aquele original, na barranca do Rio mesmo. Até que, na metade da faculdade decidiu que tinha que levar a sério. Naquele tempo as agências de Foz não tinham vaga em criação. Estagiou um breve período como atendimento mesmo, era o que tinha. Mas, a vontade de voltar para o Rio era enorme.

O menino abriu mão da vida boa da vila e foi buscar um desafio maior. Foi virar gente grande. Longe da família, dos melhores amigos e da tranquilidade da cidade. Chegou no Rio com sangue no olho. Ainda sem ter nenhum conhecido na área de propaganda, ele se virou e foi insistindo, aprendendo e ralando. Ralando bastante. Se tem uma coisa que a propaganda exige de quem quer trabalhar na criação é não ser preguiçoso. Quem disse que seria fácil? Foram 10 anos no Rio de Janeiro passando por agências pequenas, médias e grandes. Claro, com direito a praia no final de semana ficava mais fácil.

Até que, de tanto ouvir dos colegas de profissão que deveria tentar um passo a mais na carreira em São Paulo, onde os clientes possuem verbas maiores, agências mais bem estruturadas e foco nos principais festivais de propaganda. Onde ganhar um leão dava um pedigree no seu nome. Lá foi ele mudar de cidade novamente. Colocou essa meta na cabeça e foi buscar.

A selva de pedra, a falta de praia, a falta de amigos e família foi um dos maiores desafios. Entrar numa grande agência então, nem se fala. Parecia até impossível. Mas o sonho do menino ainda existia. Foi preciso garra, perseverança e uma grande dose de dúvida. São Paulo é uma cidade workaholic, e o que é bem comum por aqui é que muitas pessoas largam sua cidade natal em busca de um bom trabalho nessa metrópole. O custo de vida é altíssimo e a quantidade de gente talentosa faz a disputa pelo lugar ao sol, entre prédios bem altos, uma concorrência até desleal. Foco. Essa foi a palavra. Vontade de desistir? Sim. Muitas vezes. Mas sempre tentando um fôlego a mais. Acreditando e buscando. 2 anos e meio de vida paulista e o resultado finalmente apareceu:  Um leão no Festival de Cannes.

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Para quem não está familiarizado, o Festival de Cannes possui um de cinema e outro de propaganda. Propaganda apenas não, ele evoluiu tanto que agora é um festival de criatividade. “É como o Oscar só que para o mercado publicitário. O prêmio mais buscado pelos profissionais de criação. O pedigree para firmar qualquer carreira e rechear qualquer portfólio”.

Eu sou o menino que um dia sonhou com isso. Hoje a conquista se realizou. “Escrevo em festa e divido com vocês a minha alegria. Da infância em Foz até o sonho concretizado em plena Riviera Francesa”. Sou testemunha de que é possível realizar seu sonho, basta estar disposto a pagar o preço e jamais perder seu objetivo. Obrigado a todos que me deram força e acreditaram em mim. Meu pai coitado, a cada decisão impulsiva minha, aparecia um fio de cabelo branco nele. Valeu a pena. Agora a luta para levar bons trabalhos para a rua continua e, quem sabe, venham mais felinos.

Digo Souto.

Vejam o vídeo da campanha:

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