Inaugurada a FEIRA DO LIVRO em Foz do Iguaçu 2013 em grande estilo!

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gonçalo-revistavidainteressanteO Salão do Livro em Foz do Iguaçu, edição de 2013, é inaugurada com a conferência do escritor angolano, naturalizado Português, Gonçalo M. Tavares, 43 anos, autor de diversos livros literários, dentre os quais, “Jerusalém” (Companhia das Letras, 2006),  realizada em 20 de agosto na Fundação Cultural.

Seu primeiro livro chamou-se “O livro da Dança” (2001, esgotado). Ganhou Prêmio José Saramago em 2005 e em 2004, ganhou o Prêmio Ler/Milenium. Realizou o workshop sobre o ofício da escrita no dias 21 e 22 de agosto, no Ecomuseu Itaipu.

Na simples condição de leitora, gostaria de compartilhar com os leitores da coluna “Café com Livros” minha visão nestes três dias de contato com o renomado escritor. [Minha função é de apenas compartilhar um bom momento cultural, rico em experiências intelectuais e muito singelo na forma como foi conduzido da conferência até o final do workshop ministrado ontem e hoje pela manha. Não sou crítica literária (nem quero ser). Na conferência foi destacada a importância da política, em um sentido social, no ofício da escrita, com um toque realista, pautada na natureza humana, diante de crises sociais como o holocausto e a Segunda Guerra Mundial. Gonçalo enfatizou que não é possível hoje ignorar este genocídio. Não se pode escrever hoje como foi a literatura do século XIX, uma vez que realidade social atual é muito diferente, isto é, mais trágica.

O século XX foi o mais violento da história humana. Neste contexto, a boa literatura evidencia um homem real: agressivo em sua essência. Para ele, o homem é ”um animal bem contido nas grandes cidades”, que em condições de escassez material, como a fome de seus filhos, torna-se – por força das circunstâncias – até capaz de matar para sobreviver.

Cultura: bem não roubável.

O escritor também ressaltou a importância da cultura como instrumento de poder, sendo portanto o único e mais precioso bem não-roubável, portanto, posso deduzir que seja um bem não perecível e vitalício.

A Lei nem sempre é “legal”.

O filósofo considerou que o fato de sermos democráticos não nos garante a paz entre os homens, nem mesmo a questão da legalidade, ou seja, das leis. Ponderou que o holocausto foi todo baseado em leis, uma vez que os alemães são legalistas. Portanto, o juízo crítico é sempre importante, independente do sistema político.

Imaginação.

Comentou sobre a importância da imaginação, aliada a etimologia da palavra “imagem”, sendo oposta à lógica passiva da TV. A leitura exige do leitor uma ativação de sua criatividade como produtor de imagens e não apenas como receptor de imagens, como se faz na TV.

Gonçalo evidenciou que a literatura moralista não resiste ao tempo, por ser uma literatura perversa, devido à inautenticidade.

A literatura é por sua natureza amoral e imoral, uma vez que o ser humano é essencialmente por natureza da mesma forma, citando o exemplo do holocausto, da Segunda Guerra Mundial, dos regimes totalitários.

Argumentou que os animais, por exemplo, não segregam e matam seus semelhantes como fizeram os homens. Também considerou o altruísmo, quando algumas pessoas perdem suas vidas para salvar seus semelhantes.

Seus argumentos e exemplos racionais me permitiu concluir que o ser humano é um ser de contrastes extremos, numa contradição, numa complexidade, tanto por fatores negativos, como também por fatores positivos. Portanto, segundo Tavares, a TV percorre apenas o “visível”, enquanto a literatura estimula a “imaginação”.

Citou a maior filósofa sobre política do século XX: Hannah Arendt, ela mesma, uma sobrevivente do holocausto, sendo uma das mulheres mais cultas do século passado (http://pt.wikipedia.org/wiki/Hannah_Arendt).

Sobre literatura brasileira, citou Clarice Lispector, como dentre os cinco maiores escritores que ele aprecia; destacando a originalidade e criatividade de Lispector ao escrever cerca de cem páginas para uma protagonista um tanto quanto ignorada na literatura mundial: a barata.

Também, citou Guimarães Rosa dizendo que Rosa nos obriga a ler mais lentamente.

Dentre os estilos literários, ele prefere o realismo, sem dúvida.

Sobre a

OFICINA “Escrita, Ideia e Imaginação” promovido pelo projeto “Diálogos de Fronteira”do Pólo Iguassu.

Destaco apenas minhas impressões pessoais na condição de aluna. A turma pequena e bem diversificada: a aluna mais nova tem 14 anos, está escrevendo seu primeiro livro; também estava presente uma Pesquisadora que é doutoranda da USP, que estuda a obra de Gonçalo. Na turma, também estavam presentes jornalistas dentre outros profissionais da comunicação, além de escritores locais. Todos com um interesse em comum: a arte da escrita.

Foram duas manhãs de workshop sobre a arte da escrita. Mal percebi o tempo passar. Como os filósofos gregos clássicos, tivemos a primeira parte do curso ao ar livre e no segundo dia, passamos indoor, numa sala normal de cursos.

Na primeira manhã, a ênfase de Gonçalo foi destacar a importância do modo de ver, ou seja, o sentido do olhar, cujo método foi destacar o papel do Erro, pois o obstáculo para o escritor pode ser uma alavanca para a criatividade.

Na segunda manhã, a ênfase do Professor foi destacar a importância do modo de ouvir, o sentido do ouvir o outro e a si. O obstáculo neste caso, não foi o erro, mas o acaso.

Com muita simplicidade, tanto na maneira de abordar os temas complexos, como na forma de processar o pensamento e também na forma de expressar o pensamento em palavras, Gonçalo foi didático e descentralizador.

Como bom filósofo, acionou nossa maneira de pensar por meio de exercícios práticos, rápidos, em que tivemos que descobrir e perceber a nossa própria individualidade, nossa singularidade e ”unicidade”, como principal item da escrita.

Na condição de um simples filósofo genuíno, acionou nossa maneira de pensar por meio de exercícios práticos, rápidos, em que tivemos que descobrir e perceber a nossa própria individualidade, nossa singularidade e ”unicidade”. Tudo transcorreu com muita fluidez, leveza e até com um certo divertimento, pelos desafios – inspirados em princípios matemáticos – propostos à turma.

Tive a impressão que a mensagem final do workshop poderia ser esta: “seja você mesmo usando a razão”.

Encerrou o curso, afirmando que é importante utilizar a lógica e a racionalidade, e criticou a tendência romântica (e até ingênua) de relacionar loucura e arte literária como ”forma de criatividade”.

Ele discorda desta visão, pois argumentou que diversos escritores, como por exemplo,

Nietzsche  (http://pt.wikipedia.org/wiki/Friedrich_Nietzsche) produziu suas grandes obras antes de ser tomado pela doença mental (atacado pela Sífilis: Doença Sexualmente Transmissível).

Portanto, é a sanidade o berço das grandes obras escritas.

A razão é o berço da criação literária autêntica, citando também Salvador Dali.

Após o workshop, o escritor conheceu a Kunda, encontrando outros escritores da nossa cidade , em que compartilhou livros e autógrafos.

Confira as fotos e também a breve entrevista com ele.

 

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