Diário de Viagem – Uma Miragem em São Francisco de Paula na Serra Gaúcha.

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diario-de-viagem-vida-interessanteVisitei uma bela cidadezinha na região serrana de Porto Alegre com a expectativa de saborear uma polenta com pinhão, iguaria típica dos descendentes de italianos e, depois, visitar uma livraria local. Conheço Gramado e Canela e suas respectivas livrarias pequenas e aconchegantes. Então imaginei que sendo São Francisco de Paula uma cidade muito menor do que as badaladas cidades da serra gaúcha, lá encontraria uma livraria menor ainda.  Convenhamos, encontrar uma livraria aberta em um feriado por si só já é uma novidade.

Mas, para minha surpresa, deparei-me com um casarão em estilo colonial de quase quatro andares, considerando que o sótão é integrado ao ambiente interno, como era a casa de meu avô paterno, filho de italianos do norte da Itália, conforme aparece no filme “O Quatrilho”.

Ao entrar, vejo uma estante de madeira maciça contendo cerca de seis prateleiras exclusivas para a Literatura Portuguesa, outra estante de autores russos, outra com autores alemães, brasileiros e fui descobrindo sessões de autoajuda, espiritismo, exoterismo, culinária, decoração, psicologia, educação, história. Antes de avançar para o segundo andar, percebo uma enorme sala exclusiva para as crianças, com várias sessões de livros infantojuvenis. Avanço para o segundo andar, dedicado a objetos de decoração referentes ao ambiente de livros e, no terceiro andar, concentram-se os livros usados, ou seja, é o sebo, havendo sala exclusiva para autores gaúchos e outra menor com obras e fotografias da própria cidade (São Francisco de Paula). Além disso, há vários cantinhos com janelões, com cadeiras e sofás para a leitura dos visitantes. Ou seja, se eu quisesse ficar ali, lendo o dia inteiro sem comprar nada, poderia. Em outras palavras, além de livraria e sebo, aquele local funciona também como uma biblioteca pública, com outras salas de exposição de elementos da cultura local, então é um museu também. Mais curioso e mágico foi perceber que alguns visitantes estavam acompanhados de seus cães de estimação na coleira ou no colo. Aliás, há duas estantes dedicadas somente a livros sobre cães e gatos.

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Sem saber se eu olhava para tudo, sorria para os cães, escolhia os livros para mim, apressei-me em tomar um café. A felicidade não cabia em mim. Eu me perguntava se aquilo era mesmo real. Apressei-me em descer as escadarias de madeira, revendo cada andar, observando o fluxo das pessoas, a calma dos cachorrinhos, as crianças com os pais, prestando atenção para a suave música ambiente, o silêncio tranquilo das falas baixas de alguns leitores.

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Aquela felicidade eu havia sentido em 1996, quando visitei a Foyles do bairro de Bloomsbury, uma tradicional livraria londrina que possui vários andares, abarrotada de livros do mundo todo. Atualmente a Livraria Travessa, assim como a Livraria Cultura hoje, por exemplo, são um sonho de qualquer leitor, mas estão localizadas nas grandes capitais.

Minha surpresa foi encontrar uma livraria de grande porte numa cidade tão pequena, tendo um estilo próprio, uma decoração rústica com os tijolinhos à mostra, muita madeira escura, um ar de casarão colonial.

Sentindo o aroma de café, reuni alguns livros para meus estudos, em um esforço para conter a alegria e focar a atenção, já que não dispunha de muito tempo para permanecer ali. E, procurando um cantinho para me esparramar, sorrio para uma senhora que se aproximou quase que por acaso, para quem exclamei: – Que lugar especial! E ela me perguntou: – Você acha mesmo? Por quê? respondi prontamente: – Toda livraria é um portal para o mundo e de fato esta livraria não é diferente!

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Neste momento, descobri que estava diante da idealizadora e proprietária da livraria MIRAGEM, que se chama Luciana Olga Soares, cuja história de vida é tão interessante quanto à livraria.

Formada em História, fundou a livraria após se aposentar como professora, há 14 anos. Cresceu em São Francisco de Paula, sendo a única filha mulher de cinco irmãos. Sua paixão por livros eclodiu em sua própria casa, onde havia uma biblioteca com 500 exemplares. Relatou-me que lia a palavra Dostoievsky e, pelo nome do autor, a menina deduzia que o conteúdo seria mais difícil ainda. Passados alguns anos, tomou coragem e abriu o livro e, desde então, apaixonou-se pela literatura russa.

Narrou-me com certo pesar que a cidade foi um paraíso até o início do cultivo de pinus.
A partir de então, a qualidade de vida vem sofrendo uma erosão, tal qual o solo vem sofrendo as agressões dos agrotóxicos. Condição que afetou a fauna e a flora nativas. Com certa emoção, relatou que os pássaros Quero-Quero não têm abrigos para seus ninhos, além da violência social que é alarmante. A situação é tão diferente da vivida em sua infância e juventude que ela se sente hoje uma “estrangeira” na cidade natal.

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A livraria MIRAGEM tornou-se sua fortaleza, o local em que abriga a melhor parte de sua memória, de seus vínculos com familiares, amigos, escritores, ex-alunos e visitantes de cidades próximas, além de seus cães de estimação. A solidão tão demarcada na infância, nos espaços vazios e vastos dos campos verdes e no aconchego na lareira noite a dentro, cuja única companhia eram os livros, deu lugar à nostalgia de um tempo que não tem chance, pelo menos em curto prazo, de voltar. Os tempos mudaram, mas seu amor pelo livros permaneceu e se multiplicou, ao ponto de compartilhar com a sociedade esta estóica sabedoria.

Publicou, em 1999, seu livro de memórias e pensamentos intitulado: MIRAGEM. Daí o nome da livraria que se tornou seu projeto de vida.

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Bem, já havia me sensibilizado pelo arcabouço de sua vida, nas vigas da livraria. Precisava ler seu livro para terminar esta matéria e o fiz com muito prazer, sem sentir o tempo passar. Li todo o livro de 234 páginas, contendo fotos de sua infância e familiares, dos livros de sua casa paterna, e seus pensamentos sobre como sente o silêncio, a amizade, o amor, a saudade, a vida. Cada palavra, cada frase, cada parágrafo, cada página expressa a dor de uma solidão quase invisível, se não fosse o seu olhar fugidio. Eis um tipo muito particular de solidão, daquela que ninguém percebe, nem vê, sentida somente a quem se sente isolado lá no fundo da própria alma, mesmo quando está visivelmente acompanhado. Tal qual o frio que se sente dentro dos ossos, não há casaco que aqueça o corpo; ou alguém capaz de acalentar uma alma que sente este tipo de solidão que vai além da pele, do corpo e do tempo.

Sua escrita revela a impressão do vazio de uma alma que se dilata a cada espaço em que a Natureza resplandece, guiada por um olhar contemplativo de alguém que sabe observar sem julgar, que espera sem se desesperar, que lamenta sem lastimar, com um quase ou sutil toque de humor. Quem tem cicatrizes na alma, decodifica o âmago do pensamento lírico e límpido desta admirável intelectual self-made-women que começou a escrever aos 11 anos de idade.

MAIS: http://livrariamiragem.blogspot.com.br

6 COMENTÁRIOS

  1. Também tive a oportunidade de conhecer a livraria e fiquei impressionada com a riqueza dos detalhes e do ambiente. Parabéns aos idealizadores do local e sucesso, pois nos tempos atuais onde a internet toma muitos espaços há pessoas que apostam nos métodos convencionais de empreendimento.

    • Prezada Katia Ramon. Obrigada pelo seu comentário. É muito gratificante ter um leitor que viveu a mesma experiência interessante que o escritor. Isso evidencia a veracidade do texto, que no meu caso é um ensaio, uma crônica, algo enfim que eclode da alma e ativa todas as leituras e vivências afins. Compartilhar um prazer intelectual e vivencial é uma experiência que torna a vida mais interessante!

  2. Parabéns pela reportagem descrevendo tão bem e com tanta sensibilidade esse pedacinho do céu, construído por uma alma tão especial! Quero visitar em breve.

    • Stella, obrigada pelo seu feedback. Vá preparada com dinheiro em espécie porque a livraria não aceita cartões. Exceto este detalhe, tudo é realmente prazeroso! É um lugar para passar os dias! Fico muito feliz em despertar a curiosidade para algo tão único!

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