Brasil de LUTO na Copa de Futebol de 2014: vamos dar um Olé para a tristeza?

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Histórica derrota da história do Futebol. A goleada da Alemanha de 7 a 1 não sairá da nossa memória. A derrota resultou em uma comoção nacional. O luto se instalou desde a terça-feira até hoje (sábado), quando quase levamos uma outra goleada.

brasil-alemanha-revistavidainteressanteAdmiro o controle emocional que o time da Alemanha evidenciou antes de entrar em campo sob vaias. Numa das inúmeras reportagens, mostrava o time em silêncio, sem afagos e qualquer tipo de expressão emocional, em que todos os jogadores sérios caminhavam naturalmente, rumo ao estádio lotado de brasileiros que urravam gritos de guerra.

O repórter narrando a concentração do time, explicava que todos já haviam se preparado para enfrentar aquele instante de hostilidade geral, afinal, estavam no país do time adversário, o grande favorito da Copa. Os jogadores alemães foram preparados por Psicólogos para manterem o foco mental no jogo, e ao mesmo tempo, ignorarem as agressividades, vaias e a euforia da torcida. Enquanto o time alemão cantava o hino, abafado pelos gritos da torcida, mantiveram a mesma serenidade impávida e colossal, de quem não foge à luta. Não se intimidaram, mas também não agrediram.

A postura firma e de naturalidade continuou após o término do hino brasileiro, seguido dos rituais próprios de um sincretismo religioso que marca a nossa cultura latina, como expressões de bençãos, superstições, rezas, sinais com as mãos.

A autoconfiança sustentada pela auto-eficácia – edificada pela disciplina – venceu o milagre da fé. O planejamento racional e a determinação de uma liderança que sabe onde quer chegar e soube traçar metas realistas para conquistar esta vitória honrosa, resultou numa derrota horrorosa para todos nós brasileiros. Por que mostrou nossa imperícia emocional diante do mundo todo em uma atividade em que somos “o máximo”, além do Carnaval, e do que mais?  Os jogadores alemães não apenas levavam consigo um altivo corpo esculturado por milhares de horas de treinos específicos, mas um cérebro treinado para não dispersar o foco da prioridade: o gol.

O resultado de tanta disciplina não poderia ser diferente, mesmo diante de um adversário carismático, conhecido pela simpatia, pela alegria, pela sensualidade, pelos jogadores que fizeram história, como Garrincha, um Ícaro da pobreza, capaz de transformar uma deficiência física em diferencial.

Sem dúvida o Brasil é permeado por estes ícones resilientes à pobreza, à violência doméstica e urbana, ao descaso das autoridades, à violência policial, à violência moral do abandono civil, em que prevalece a lei do mais forte, do mais malandro ou daquele que é capaz de reinventar a si mesmo, seja no Esporte, nas Artes como Aleijadinho, na Literatura como Machado de Assis, na Música como Chiquinha Gonzaga, incluindo a música popular como a dupla Claudinho e Bochecha, dentre outros artistas importantes e icônicos como Zezé Di Camargo e Luciano.

Na política, Lula tornou dispensável a educação formal e preparo para assumir e reassumir a maior liderança política da América Latina, com a ideia ultrapassada de Robin Hood, quando apenas o que fez – dentre muitos feitos positivos é claro, desde que o vento sopre a favor – foi colher os louros de um ex-Presidente culto, letrado e ponderado, deixando as contas e encargos morais para a presidência seguinte, que vem sendo o bode expiatório da politicagem. Contudo admito que o legado da gestão lulista foi a educação fundamental. Isso é louvável. Embora, não seja mais do que uma obrigação. Afinal de contas, nós trabalhadores trabalhamos 5 meses pagando impostos para quê? Eu sei, também para pagar o plano de saúde e segurança privada (Aqui porque Policial faz greve para merecer um salário digno).

No Brasil, a imprensa valoriza a pessoa que conseguiu ser algo sem nada ter para tanto. Talvez por isso, heróis nacionais que não sejam apenas fruto da sorte, do acaso ou de um mega-talento se tornem raríssimas exceções. Isso porque talvez não tenhamos ainda – enquanto Nação – um nível educacional de compreensão desenvolvida para vislumbrar o real valor de um artista como Heitor Villa-Lobos, de um político como um Fernando Henrique Cardoso e mesmo a sofisticação da culta primeira Dama Rute Cardoso de Melo. Incluo o jornalista Paulo Francis, pela ousadia, cultura e irreverência que também na minha opinião é pouco valorizado no Brasil.

Um artista e principalmente um político um pouco mais culto, logo é discriminado no Brasil. Há um culto à pobreza, uma glamourização dela num discurso hipócrita e anacrônico próprio da América Latina.

Mas a imprensa internacional valoriza alguns ícones brasileiros como por exemplo o diplomata carioca Sergio Vieira de Mello (Power, Samantha. “Chasing the flame: Sergio Vieira de Mello and the fight to save the world”, The Penguin Press, 2008), dentre tantos heróis cultos que a imprensa local insiste em ignorar.

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E não posso deixar de citar o maior ativista pelas causas indígenas do Brasil chamado Sydney Possuelo (Wallace, Scott. “Além da conquista: Sydney Possuelo e a luta para salvar os últimos povos isolados da Amazônia”; Ed.Objetiva, 2013).

Capa Alem da Conquista.inddCerta vez, um amigo muito culto e respeitável, que ralou para estudar, investindo muito de seu tempo em leituras, me fez a seguinte pergunta: o que dizer a uma criança quando ela sente a dor da derrota? E lhe respondi mentalmente: – Lembre-na dos nossos heróis!

Uma derrota desta dimensão como é a perda do título de melhor time de Futebol do mundo, nos faz pensar nas nossas próprias conquistas e derrotas pessoais. A tristeza que se instaurou nesta última semana não foi apenas a do futebol.

Compensamos no jogo todas as nossas descompensações pessoais.

Na Alemanha, há outras conquistas em vários ramos do conhecimento e da atividade humana, além do esporte. A frustração desta goleada, nos faz pensar na goleada que tomamos aqui e ali, quando tentamos acertar, fazer direito, seguir as normas, mas o que vale parece ser “o jeitinho”, o “conchavo”, “de um doce sorrizinho cínico com o tapinha nas costas” como bem criticou Vossa Excelência Ministro Joaquim Barbosa na entrevista ao Roberto D’Avila neste ano, lamentando – dentre outros entraves sócio-culturais específicos do Brasil – que sua cor seja mais comentada que seu currículo, arduamente construído por horas infindáveis de dedicação ao estudo. Falso elogio ou hipocrisia? Arsênico também é doce e mordida de morcego também não dói.

Nenhuma vitória honrosa – como a do time alemão sobre o time brasileiro – é fruto do acaso e do descaso, mas da garra pessoal, sejamos pobres ou ricos, brancos, pardos ou negros, indígenas, homens ou mulheres, europeus ou americanos, ocidentais ou orientais, jovens ou idosos, belos ou feios, analfabetos ou eruditos.

Atualmente tenho a impressão que o simples fato de querer o bem comum em si mesmo seja um ato de heroísmo, porque o que impera é ser um anti-herói e uma bad girl. Contudo, temos heróis tão nobres e ilustres como os jogadores Pelé e Neymar, assim como cientistas como Dr. Chagas e Dra. Suzana Herculano, dentre tantas pessoas que fazem o nosso dia valer a pena. Além de heroínas da ação social como Rose Marie-Muraro, falecida recentemente.

gasto com educação-revista-vida-interessanteCom os meus  Avós, aprendi que tudo tem um custo na vida. Sorte foi não ter tido vocação para a facilidade, porque sempre me pareceu perigoso demais depender da sorte, do olhar dos Santos e da generosidade alheia. Nunca acreditei em contos de Fadas.

Como um mantra, sempre me lembro das palavras da sábia Professora Jane Elliott, no documentário “Olhos Azuis” (http://www.newsreel.org/transcripts/essenblue.htm) dizendo a uma bela e simpática aluna sobre a importância de ser competente, mais do que ser apenas bela, repetindo várias vezes com ênfase: – Get competent! Get competent! Get competent! (http://www.newsreel.org/guides/blueeyed.htm). E no final do seminário sobre o preconceito social,  ela conclui que diante de tanta pressão, o único lugar em que podemos vencer é dentro de nós mesmos:

Jane Elliott:

Am I going to let you win? 

Where is the only place you can win in this situation?

M:

I can’t.

Jane Elliott:

Can you win in your mind?

M:

Yes.

Jane Elliott:

Yes. Yes.

Como bem resumiu minha professora de Psicologia Positiva, Dra.Mônica Portella, no programa Sem Censura (TVE) nesta semana da Copa, o jogadores foram vítimas de si próprios.

Admito que diploma não seja tudo na vida de uma pessoa, como também não posso admitir que um jogo de futebol seja tudo num país continental como o Brasil. Mas convenhamos, a mundo avançou tanto que apenas sorte, carisma e o improviso não bastam para uma vitória diante daqueles que sabem controlar as próprias emoções. É preciso excelência em competência naquilo que a pessoa elege como prioridade para a própria vida.

E como aprender a controlar as emoções sem passar por uma educação básica e sólida? É possível? Sim. Um brasileiro já conquistou a Presidência da República sem diploma nenhum. Por que não ambas as forças: cérebro e coração?

Na minha época, crianças ajudavam mais em casa. Nosso trabalho era “estudar”!Nada pode ser tão saboroso quanto o sabor de uma vitória pela auto-eficácia. Não troco minha juventude confinada em salas de aula, em lugares sem a menor estrutura para estudar, incluindo a minha própria residência, por qualquer facilidade atual. Curti danceterias com meus amigos, criando coreografias em alguns finais de semana. Não deixei de me divertir sadiamente. Mas não havia tanto acesso a bebida alcoólica, nem acesso tão fácil às drogas como hoje em dia. Bebe-se muito.

Atualmente parece-me que há muita permissividade em todos os sentidos (http://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/walcyr-carrasco/noticia/2014/07/sexo-bcomo-viciob.html).

Vivemos a era dos excessos em geral (sexo, compras, comida, jogos de azar, drogas). Qualquer pessoa que seja um pouco mais disciplina ou ponderada é logo taxada como careta. Desculpa, mas a saúde é nosso maior patrimônio!

A prova desta ilimitada euforia e algazarra são as dívidas a perder de vista, porque você merece “ser feliz”. Claro, se você perguntar às pessoas que se jogam na vida, a maioria quer a “paz” e a “felicidade”, o “bem-estar”. Mas até para ser feliz é preciso disciplina e ponderação!  E o que acontece diante da menor frustração: raiva, ira, ódio, amargura, revolta! E se for uma de ordem nacional como a derrota do time do Brasil para o time da Alemanha há uma semana? Tudo e mais um pouco.

Há uma overdose sensorial e pouco prazer intelectual. Como discernir entre o real e o irreal? Entre a necessidade e a voracidade? Entre o oportunismo e o desejo de fazer algo? Ouvir, sentir, perceber, ter uma atenção no agora torna-se algo mais difícil que qualquer equação da Física. As emoções mais truculentas e os “chavões” mais grosseiros são triviais até na boca de uma criança.

Exercitar a mente para se auto-iluminar e se auto-imunizar nos dá suporte para darmos um apoio emocional a nós mesmos em primeiro lugar, e em segundo lugar, uma atenção com muito mais qualidade às pessoas que amamos, sem exceder nossos próprios limites.

Claro que nem sempre é possível sorrir o tempo todo, mas se conseguir ficar em um lugar mais tranquilo para pensar melhor, já é um bom começo para começar a se reestruturar emocionalmente. Na maioria das vezes, silenciar é melhor que gritar ou chorar, ou mesmo se endividar.

Hoje, assistindo a mais uma triste derrota do Brasil contra a Holanda, nossos jogadores continuavam apagados. De que adiantaria a Bahia de todos os Santos sobre o estádio? De que adiantaria o Cristo de braços eternamente abertos, se tudo for apenas um só coração?siga o seu coracao-revista-vida-interessante

Coração é fundamental, mas não basta. É como um carro desgovernado com o pé no acelerador. A overdose faz com que a pessoa perca a noção do que seja razoável. Assim, ela faz parte do Partido dos Sem-Noção (PSN). Aquelas pessoas que falam e fazem coisas sem pensar. Até falar palavrão vicia! O mal uso do cérebro é o pior dos desperdícios. Até os 16 anos, é suportável. Mas depois desta idade, é lamentável.

Numa das entrevistas com um dos jogadores alemães, foi perguntado como eles mantiveram tanto controle emocional diante de tamanha hostilidade brasileira antes do jogo e como reverteram o rumo do jogo nos primeiros minutos da partida. E a resposta foi metafórica, mas perfeita. A emoção é como um sabonete líquido, que precisa ser bem dosado e contido numa esponja, para ser usado no momento certo.

Foi exatamente o que fizeram. E com toda certeza, depois deste “sabão”, não faltará coração para encerrar a Copa amanha. Fica a lição para sermos um pouco mais cérebro do que apenas coração, para não perdermos o foco. Fica a mensagem para as nossas crianças que tanto choraram vendo os pais chorarem com a vexaminosa derrota do time de futebol brasileiro.

Mônica PortellaE o que diria a cada amigo e colega que compartilha esta derrota?

Diria para se lembrar das pequenas vitórias, das médias e grandes vitórias de sua vida até aqui. Elas nos dão forças para superar a tristeza e aprender que a disciplina, pela meritocracia, é a base de tudo, seja o vento contra ou a favor.

A princípio, talvez você não se lembre de nada. Mas se continuar pensando, lembrará de situações em que sentiu orgulho de si mesmo. Se não se lembra, então pergunte para uma pessoa que realmente goste de você, se ela já sentiu orgulho de ser seu amigo, por exemplo. Criticar é fácil. Pelo menos uma vez por semana, esqueça as críticas. Pense nas suas vitórias positivas, mesmo naquelas que ninguém saiba, só você!

Vale perguntar não apenas onde erramos, mas principalmente qual foi o maior trunfo do time adversário. Com toda certeza, o maior trunfo não estava apenas nos pés, mas sobretudo dentro da cabeça! O carisma saudável deve vir da competência e não da sedução infantil.  Os alemães conquistaram o Brasil com a simpatia e a seriedade, ou seja, ganharam até a torcida brasileira.

a-menor-acao-e-melhor-do-que-a-intencao-revista-vida-interessanteSó há uma justificativa racional para um sofrimento tão prolongado como este: o aprendizado! Mas para quê? Ora, para não merecer outra goleada como esta!

Na prática, a partir desta segunda-feira, vamos trocar o luto pela luta?

O Brasil quer continuar a ser apenas carismático?

Quais as vantagens de sentar e chorar?

Só sentir e pensar, nem pensar?

Se você conseguiu ler este texto até o fim, meus parabéns!

Meus Editores sempre me pedem para escrever trechos curtos porque o internauta lê pequenos trechos. Mas com tamanha comoção nacional, não tive como simplificar. Passei a semana refletindo sobre esta dor narcísica do nosso querido povo brasileiro, que passou a ser também a minha dor também, embora eu não seja uma apaixonada por Futebol.

Numa grande derrota, o pior dia, é o dia seguinte, como em qualquer lesão. Mas depois passa… vai diminuindo. Então vale o esforço de também recordarmos nossas pequenas vitórias, que ao longo do tempo se somam às outras conquistas. Só assim, reunimos forças positivas para superar a dor e reelaborar um novo futuro sob uma base mais sólida e realista.

Já não é hora de darmos um Olé! para a tristeza?

A autoeficácia nos dá um sentimento indescritível que se prolonga por décadas. Conquistar é muito mais prazeroso que ganhar.

Meritocracia é tudo de bom!

einstein-felipao-cristo-redentor-revistavidainteressanteUm esclarecimento importante: Psicólogo não faz milagres. Se a pessoa não fizer a própria parte, a lição de casa, se não houver disciplina, ela pode ser atendida – já que estamos falando em milagres – por Freud, propositor da Psicanálise (da Psicologia quem foi o propositor foi o alemão Wundt), que o resultado dependerá somente da sorte ou da incompetência do adversário. No mundo dos seres humanos, as competências são implementadas pela Educação Fundamental (os valores sociais de uma Nação).

Gostar de ler é um ato revolucionário!

 Até Breve!

Graça Razera

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