Ballet Grupo Corpo – Comemoração de 40 anos

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Quando abri o jornal Gazeta do Povo e li o anúncio da apresentação do Grupo CORPO, imediatamente reservei um ingresso. Sempre acompanhei os espetáculos pela televisão, e por algumas cidades do Brasil, mas nunca pude presenciar o grupo ao vivo.

Cheguei tão feliz ao teatro Guaíra, que não pude disfarçar minha alegria. Mostrei o ingresso e a moça, me perguntou se eu gostaria de me sentar nas primeiras fileiras, pois eu estava ao fundo. Custei a acreditar que fosse verdade. Ela repetiu mais duas vezes, sorrindo da minha surpresa! Quando ela disse: – Bom espetáculo! Então acreditei!

Em seguida, fui abordada por uma repórter que me entrevistou sobre a minha opinião quanto ao Grupo Corpo, que será talvez publicada no site.

Finalizada a breve entrevista, subi as escadarias até o teatro ainda vazio. Ah que delícia ver todo aquele espaço dedicado à contemplação do que apenas a nossa espécie é capaz: produzir arte de qualidade. Uma licença poética diante de tantos contratempos e afazeres, de tantos mandos e desmandos… Usar outras partes do cérebro é poupar as que são demasiadamente desgastadas com a nossa luta para sobreviver dignamente numa sociedade ainda tão contraditória.

A arte tem esta função: a de dar leveza, como a clara em neve tem a função de oxigenar um bolo tornando-o mais leve e palatável, sem desmerecer a delícia de um brownie de café e cacau. É apenas um respiro, uma pausa. Na melhor hipótese: um longo suspiro. Como imaginar uma sociedade sem artistas? É como imaginar um jardim sem cor.

Acompanhei documentários sobre a organização do grupo, história, princípios, e sempre me chamou a atenção a exata dosagem entre a técnica do ballet clássico unido à dança contemporânea, tendo como identidade a brasilidade no suave gingado, que seria uma gafe no ballet clássico. Mas a forma como é coreografado, somado ao cenário, figurino e música, soma-se numa fusão ímpar entre rigor técnico, precisão dos movimentos e a leveza dos movimentos corporais que marcam a nossa cultura brasileira: molejo, flexibilidade, obliquosidade, saltos, micromovimentos pelos isolamentos de tronco e quadril na dose certa, nem mais, nem menos. O corpo em sua performance máxima nos limites da fisiologia. Tudo muito simples, mas percebe-se que houve muita elaboração em cada frase cinética. Nada escapa ao ritmo da música. Iluminação, expressão corporal, com neutralidade de face e mãos. O corpo fala, o espetáculo é do corpo… em um timing perfeito. Sem excessos.

Há muita precisão.  Difere-se muito das ornamentações e dos saltos clássicos, porque o movimento se expande no ar e retorna ao solo quebrando-se aos poucos como floco de neve que rola com a suavidade da brisa. É lírico. E é esta combinação contrastante que eu queria ver ao vivo!

Sentei-me na fila B, poltrona 13 e comecei a tomar notas para esta pauta. Por detrás das cortinas, por uma pequena fresta, via os pés dos bailarinos se moverem lentamente em completo silêncio. Aos poucos os lugares atrás de mim foram sendo ocupados e as vozes foram aumentando de volume.

Sentada tão perto do palco, o maior prazer para mim foi ouvir as sapatilhas tocarem o chão, como suave sapateado espanhol, quando a música fazia micropausas: tá, tá, tá… Amo cheiro de sapatilha velha, rasgada, desgastada pelos assoalhos das academias. Elas contêm horas de ensaio, treino, exaustão e claro, infinitas horas de sublimação da solidão. É a hora em que o eu luta com o corpo, adestrando-o, disciplinando-o, vencendo a gravidade da vida.

A plateia formava um coral de vozes adultas. Muitos idosos, mas também algumas crianças. Uma variedade de pessoas dos mais diversos estilos. A plateia formava um espetáculo à parte.

Tudo estaria perfeito, se o cidadão sentado ao meu lado não estivesse com um enorme saco de pipoca com forte odor de bacon. Tentei excluir este estímulo aversivo que em nada combinava com as gigantescas cortinas de veludo vermelho-cereja do teatro. Mas eu não iria perder aquele lugar…

Fim do primeiro ato, leve, técnico e frio. As luzes se acendem. Intervalo… e me surpreendo com mais duas pessoas descendo o corredor com os mesmos sacos de pipoca com bacon.
Não me atrevi a olhar para trás e procurar mais sacos de pipoca. Já estava mais do que satisfeita em saber que três sacos de bacon estavam me defumando. A questão é que perfume francês também não combina com o odor de bacon. E a mistura dos dois quase me deu náusea. Teatro não é cinema! Não estava levando minha sobrinha para ver a Era do Gelo 1000. Enfim, por sorte da natureza humana, todo adulto conserva seu lado criança (ainda bem).
Só rezo que todas sejam educadas, principalmente diante de uma obra de artística de verdade.

Segundo ato… As luzes se apagam. Silêncio total da plateia. A cidadã ao lado do cidadão portador de necessidades especiais de bacon, liga o enorme celular. Uma senhora indignada sentada atrás dela, a repreende imediatamente, ordenando-a a apagar o celular.
Penso quase aliviada tentando não desviar minha atenção do palco:
– Que casal: um poluidor olfativo, a outra uma poluidora visual. Pena que não houve repreensão do odor de bacon. Enfim, a prioridade é o espetáculo.

Cor vermelha intensa. O drama. Atenção total. O tempo se dilui. Todos num só silêncio imersos no palco. A sensação do tempo parar por um instante…

Corpos perfeitos, delineados pela ação contra a gravidade, fortalecidos no solo, no ar, em giros perfeitos, movimentos simétricos, oblíquos, deslocamentos diferentes. Os bailarinos pareciam ter corpos da mais pura cartilagem. A vontade é de comer clara de ovo o resto da vida e extenuar numa barra de ferro todos os dias. O trabalho físico que um bailarino tem com a rotina diária com o corpo é maior do que o de um ginasta olímpico.

O espetáculo divide-se em dois blocos que funcionam em um contraste cênico marcante.
No primeiro, minimalista, cenário e figurino, marca-se a expressividade característica do
Grupo Corpo. Saltos, exploração do solo de maneira surreal, deslizamentos, giros, congelamentos. Mistura… grupo, duos, solos, que transpassam sem quebra de ritmo.
A frieza marcada pelo tom branco do figurino de todos os bailarinos e do cenário ao fundo que se parece com um enorme bloco de gelo seco ou pedra de mármore, ressalta a dança como poesia do movimento de maneira simples e original, mantendo um padrão rítmico regular, constante. Pode até parecer repetitivo, mas suspeito que seja uma estratégica para o momento epifânico do segundo ato. É como a página em branco.

A segunda parte é marcada pelo tom negro, a cor vermelha, e movimentos mais contidos e marcados. A luz clara do cenário se ofusca. É como se o drama das paixões invadisse a serenidade. A Primeira Bailarina, marcada pelo figurino delicado, cor de pele ou rosa-grená, porta em uma das mãos uma luva dourada, semelhante ao do Primeiro Bailarino, com o qual contracena num duo lírico. Juntos culminam o momento epifânico do espetáculo.
Fui às lágrimas. Não tive como me conter.

A sensação era a de que ela flutuava, sobrepairava no ar, nos braços fortes de seu par. Ela aninhava-se não no ventre, como seria um filho, mas em seu enorme peito, junto ao coração.
Foi o momento em que as emoções contidas no primeiro ato se concentrassem neste momento, expressando toda a leveza que somente a técnica do Ballet Clássico é capaz de gerar. Não se ouvia um suspiro da plateia. Todos imersos naquele momento, concentrados no movimento quase fetal da primeira bailarina que se aninhava perfeitamente nos braços do seu par. Num contraste lindo de figurino. Ele todo de negro, no cenário negro… ela se destacava como se estivesse flutuando no ar. Confesso: fui às lágrimas no duo perfeito da Primeira Bailarina.  Não vou descrever a coreografia, porque é preciso assistir para sentir. É quando a técnica é transcendida pela expressividade cênica dos artistas.

A plateia aplaudiu de pé por vários minutos ao final de modo eufórico para os padrões do público curitibano. Foi emocionante!

Até me esqueci do cheiro de bacon, a inflação, violência.

Sai tão feliz, mais do que quando entrei.

 

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