Amigos de fé

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(Foto: Divulgação / Reportagem: Revista Rolling Stone)

Sete anos após a implosão repentina do Ira!, Nasi e Edgard Scandurra reatam a amizade de mais de 30 anos e retornam ao companheirismo de antigamente.

Com o semblante tranquilo, Nasi toma os primeiros goles de café daquela tarde de junho, enquanto espera pacientemente. Ele sai do bar na Vila Madalena, bairro boêmio na zona oeste de São Paulo, fuma um cigarro e olha em direção à rua quase deserta. Depois de discorrer brevemente sobre a agitação e o cheiro da região na época da Copa do Mundo, Nasi começa a entrevista – não respondendo a uma pergunta, mas sim fazendo ele próprio um questionamento: quer saber se eu vi o novo show do Ira! “A gente está com um pique impressionante”, ele dispara sem esconder o contentamento, antes de ouvir a resposta. “Edgard está tocando guitarra de um jeito e com uma energia que eu nunca vi na vida.”

Bastou o vocalista do Ira! se lembrar do colega de banda para que o guitarrista despontasse na esquina. Meio esbaforido, Edgard Scandurra pede desculpas e explica que o atraso se deu por causa da visita técnica de uma empresa de TV a cabo. Coisas de astro do rock. Em poucos minutos, Nasi e Scandurra, que em 1981 deram início ao que se tornaria uma das bandas mais emblemáticas da história do rock brasileiro, se enfrentariam mais uma vez, depois de muitos embates passados. Não em um ringue, nem em um tribunal, mas em uma mesa de sinuca. Nenhum dos dois é um exímio jogador – eles não escondem o fato de não empunharem o taco tão bem quanto o microfone (ou, no caso de Scandurra, a guitarra). No final das contas, não há disputa naquela sala escura, o que fica no ar é um renovado companheirismo, de brincadeiras e papo aberto, sem muito espaço para detalhes sobre os caminhos que levaram à separação do Ira!, que os manteve afastados nos últimos sete anos.

Semanas antes dessa partida amistosa, no show da dupla Jack & Fancy em uma loja de discos no centro da capital paulista, Scandurra permanecia sentado na mesa próxima ao palco. Animado, prestigiava o projeto capitaneado por Clemente (Inocentes) e Sandra Coutinho (As Mercenárias), amigos dele de longa data. Antes de ir embora, é também ele quem pergunta: “Você viu minha nova banda?” Com o olhar alegre, Scandurra parecia brincar. Não brincava: o Ira! é hoje, sim, uma nova banda. Além dos dois homens de frente, a atual formação do grupo tem Daniel Rocha (filho de Scandurra) no baixo, Evaristo Pádua na bateria e Johnny Boy nos teclados. “Daniel é o mais jovem, mas talvez seja o cara que conhece melhor as músicas, depois de mim e do Nasi. Ele as ouve desde a barriga da mãe, né?”, diz Scandurra, tentando conter o orgulho de tocar com o filho no Ira! (os dois também são parceiros na banda Pequeno Cidadão). Pádua já é parceiro de Nasi há pelo menos cinco anos, tendo trabalhado na carreira solo do cantor. Já Johnny Boy é um velho companheiro: participou de quase toda a gravação do álbum 7 (1996), além de ter tocado no disco de covers Isso É Amor (1999) e no sucesso MTV ao Vivo (2000).

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