A descoberta do prazer da leitura …

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O entrevistado muito interessante da Coluna Café com Livros é o Professor de Letras da Universidade Estadual do Oeste do Paraná/UNIOESTE em Foz do Iguaçu-PR, Ildo Carbonera, que nos conta como ingressou no mundo das Letras, como se tornou escritor e o que pensa sobre a Literatura, que cultiva paralelamente ao amor pelos livros, a música.

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RVI: Como você descobriu a Literatura?

Nos velhos tempos do curso Primário, a professora Edvige adotava o livro Admissão ao Ginásio. Lá estavam textos como “Meu cajueiro” (crônica), “O acendedor de lampiões” (Poema) e “Cabiúna”(poema). Deste, guardo ainda uma das estrofes:

Cabiúna ficou grande / ficou grande e foi pra Europa / trabalhou de taifeiro / num navio brasileiro. / Aconteceu que numa noite / junto aos cais estrangeiro/ virou criança, chorava / alguém passando assobiava / uma canção parecida / com as que a mãe dele cantava.

O mundo do “acendedor de lampiões” era notadamente urbano. Lendo aquelas palavras, como não aguçar a imaginação, imaginação em cabeças de crianças que nunca haviam visto uma cidade, uma rua, uma esquina, uma bicicleta, uma luz…

No Ginásio, a Literatura aparecia em livros como A ilha sem nome, Bertoldo e Bertoldinho, as viagens espetaculares de Júlio Verne, as aventuras extraordinárias de Carl May

RVI: Qual foi o livro que marcou sua vida?

Fome, romance de Knut Hamsun (norueguês).

RVI: Qual livro que lhe deu mais trabalho para escrever?

Como é um rio? (2007)

RVI: Como foi escrever o seu primeiro livro?

Desde menino, eu queria ser um astro, um cantor de Rock. Nós tocávamos guitarra com as vassouras. No sítio, quando ia ao moinho para levar o milho e trazer a farinha para a polenta, a cavalo, eu cantava uma música, de minha autoria, usando o nome dos quatros gênios de Liverpool. No tempo do Ginásio, numa das redações escolares, ao falar sobre um homem visto numa rua da cidade assim me expressei: “Um senhor, grandalhão, bigodes”. É claro que a professora (a inesquecível Marluse Braga Machado, que me apresentou pela primeira vez um disco dos Beatles) corrigiu! É claro que ela disse tratar-se de uma frase sem verbo… Num dos meus livros, aquela frase aparece orgulhosamente, como uma frase literária… Meu primeiro livro foi sendo escrito aos poucos, com o passar dos anos, insistindo, melhorando, aprimorando… E um dia, fiz uma “seleção” dos melhores, todos curtos, singelos, simples, humildes…

RVI: Como foi o maior desafio de escrever seu último livro?

Velhos textos presentes, 2013 – O livro é composto de crônicas escritas para jornais, nos anos 90/XX. O mais difícil e complicado foi justamente “aceitar” que eu pensava assim, via o mundo e as pessoas daquele jeito, muitos juízos de valor, muito dogmático, bastante rancoroso. Lendo, hoje, há uma espécie de vergonha… mas, se eu mudei para melhor, que bom, não? PS – O meu último livro – Textos em pedaços – já está na editora, originais e a capa…

RVI: O que é mais divertido para você: ler, escrever ou cantar?

Quando estou lendo Machado de Assis ou ouvindo Raul Seixas, eu gargalho muito.  O ato de escrever é o que cobra um compromisso maior. Cantar, ah, cantar, que tudo renasça em mim. Que a música volte a alegrar a vida das pessoas; que a escrita aprimore meu ser; que a leitura encante meu espírito… Que as três, inseparáveis, tragam dias e noites livres…

RVI: O que é importante para o ofício de um professor de literatura hoje na era digital, do e-book?

“… De repente, Honório olhou para o chão e viu uma carteira…”

Eis a abertura do conto “A carteira”, de Machado de Assis (do livro Contos fluminenses, volume 2). Nós podemos ficar horas conversando graças a esta frase. Onde está a chave? Nos três pontinhos, no advérbio (de repente), no artigo indefinido (uma). O que aconteceu, “antes” do conto? Se, “de repente”, ele olhou para o chão, para onde estava olhando antes? Se Honório olhava para o Céu ou para o Inferno, o que poderia estar vendo? Se tivéssemos um artigo definido – “a” – não teríamos literatura, na ambigüidade, na dúvida, na problematização…

Mas quantos atentam para isso? Quantos adoram (porque só sabem fazer assim) intermináveis aulas expositivas a respeito de algo que os alunos não leram?

Se você tiver um texto (literário) na mão, tudo estará salvo. Meus pactos sempre foram estabelecido com alunos/as que liam, gostavam de ler, mostravam que liam, revelavam que amavam a Literatura… Os demais? Perdoe-mo-los (ops) novamente!

RVI: Qual livro gostaria de ter escrito?

“Cartas a Théo” (Vincent Van Gogh)

“Cartas a um jovem poeta” (Rainer Maria Rilke)

“O falecido Mattia Pascal” (Luigi Pirandello)

“Antígona” (Sófocles)

“O Pequeno Príncipe” (Antoine de Saint-Exupéry)

Cada linha de Machado de Assis (It’s just a crasy dream)

RVI: Qual é o seu segredo para escrever bem?

Insistência, persistência, revisão, aprimoramento; insistência, persistência, revisão, aprimoramento… A Língua Portuguesa revelou-se lógica, filosófica, rica e bela.

RVI: Qual é a o segredo para aprender a gostar de ler?

Aceitar fazer parte de um outro mundo, novo, deslumbrante, atrevido, instigante, de sonhos bonitos. Perceber que a palavra pode exercer um poder próximo do absoluto, não para escravizar, mas para libertar. Acostumar-se com o livro, visto como um amigo, parceiro, companheiro, como um servo bom e fiel, que escuta, aponta, desbrava, encanta. Aprender a gostar de ler é acostumar-se a ser livre. Aqui onde estou, ao lado dos meus livros, sinto-me seguro, protegido, livre.

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